Ode ao frio

Meus pesadelos com o calor começaram. E o pior de tudo, nem dormi. Sentia-me uma pizza em um forno à lenha, começando a assar pelas bordas, passando devagar pelo queijo, até chegar a ferver a última gota de azeite líquido. Revirava-me, tentando reencontrar qualquer parte mais fria do lençol recém lavado. Quando me acomodava nesses pequenos oásis, descobria que não passavam de miragens. O calor é implacável: quanto mais se vira, mais se esfrega, mais se esquenta. As primeiras gotas de suor começaram a brotar, fazendo exalar o cheiro de todo o alho que eu comera no almoço. “Ao menos manteria os pernilongos distantes”, pensei com minha janela mais aberta possível.

Ah, sim, pernilongos… asinhas menores que cutícula de madame, que batiam ensandecidamente à distância absolutamente ideal de minha cavidade auricular. “Logo ele vai embora”, pensei. O pernilongo vai embora. E depois volta. Vai embora. Volta. Embora. Vem. Vai. Vem. Vai. Vem. “Ok, preciso me livrar dele”. Fico à espreita, luz apagada, esperando o bispo abrir para entrar com a torre. O pernilongo faz sua última manobra. É agora. Acendo o abajur e… PLAFT!… A luz jorra diretamente sobre meus olhos, uma luz que não via há algum tempo, fazendo o pernilongo se perder entre aquelas minhocas psicodélicas típicas do abuso de luz.

“Bem, talvez seja uma boa hora para outra ducha”, tirar o cheiro do alho que ainda exalava loucamente, que não espantava pernilongo algum e que agora já concentrava pequenas poças de suor no lençol recém-lavado. Entro no chuveiro, molho com água fresca cada porção da minha alma. Enxugo-me, sem forçar a toalha contra o corpo, tudo para não esquentar. Mas o calor é implacável: ele é a Grande Toalha, ó, Secador entre os secadores! A Grande Fornalha, Aquele-Que-Seca, O Fole de Ar Quente, rightful owner of the throne, mestre sobre si e sobre os homens. “Por que me secas se farás minha água brotar?”

Deito novamente, agora mais desperto e, em questão de segundos, começo a suar novamente. Procuro pontos frescos no lençol recém lavado, agora ensopado de suor. O pernilongo vai. O pernilongo vem. Vai. Gira. Esquenta. Vem. Gira de novo. Lençol. Esquenta. Vai. Calor (suspiro)… calor (suspiro)… calor (suspiro de misericórdia). Fui derrotado. O calor me venceu.

Toca o despertador. Foi só um pesadelo. E o pior de tudo, nem dormi.

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Elas

Ela andava a passos curtos, o polegar segurando a alça da bolsa que pendia sobre o ombro direito. Tinha o cabelo preto liso e a pele branca; usava uma saia vermelha e sapatilhas pretas, mas uma blusa de renda tão branca que fazia transparecer o pouco de morenice que certamente carregava. Era jovem, e seu olhar estava distraído do mundo, porém concentrado nas ideias: tinha hora marcada.
Oh, não. Sua morte não estava anunciada, como dizem por aí. Tinha hora com a cartomante, uma mulher de idade avançada digna dos teatros mediterrâneos: a pele morena, revestida de cores vivas, cheia de penduricalhos dourados. As cores de sua roupagem e de sua tenda faziam destacar os pontos mais pálidos, em especial as palmas das mãos com as quais manuseava cartas e búzios.
“Embaralhe, embaralhe”, Ela dizia. E Ela embaralhava.
“Branco ou moreno? Jovem ou velho?”. Seus pensamentos iam alto, no ritmo da fumaça dos incensos.
Primeira carta, a Saudade… Ela nada tem a ver com a falta de algo. Diz respeito, sobretudo, a uma perspectiva: têm Saudade aqueles que não amam e preferem ser amados.
Segunda carta, a Falsidade… Ela é nobre tanto quanto as verdades podem ser baixas.
Terceira carta, a Finitude… Ela é tão desconhecida que mais vale afirmar o infinito.
Basta, basta! Até onde Elas vão? Seguem cursos indefinidamente? A cartomante não sairia de sua tenda; Ela voltaria pra casa e, no caminho, desvelaria o segredo da Ironia: era tão boa que não estava mais lá.

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Consideração de uma noite curta

“Terei tempo de retornar? De reunir todas as partes deixadas em amores mal acabados, em copos por beber, em vidas por viver?” Ninguém sabia ao certo onde gastar o pouco de sanidade que restava; ao contrário, tomavam-na de sucessivos empréstimos, insistentemente, sabe-se lá de onde: possíveis mentes com fundo inesgotável, rondando pequenas certezas, sonambulando pelas clareiras de um saber qualquer, porém limitado. Limitado em demasia. “Não pago, não pago!” Mas tudo que tomaram de empréstimo lhes seria cobrado em algum momento? Que há de tão amedrontador na loucura? Viver velhas lembranças eternamente recentes? Basta um dedo de “não” para despedaçar por completo as possibilidades de um “sim” galopante, ensandecido… Oh, sim! Depois da fome e da sede, possivelmente a pior coisa que alguém experimenta é a sensação de sabotar a si mesmo.

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Os Botões

Por Cacá

Um botão que se aperta,
Uma guerra que começa.

Um botão que se pressiona,
Uma diversão que se inicia.

Um botão que se move,
Uma partida que se joga.

Um botão que se costura,
Uma roupa que embeleza.

Um botão que desabrocha,
Uma paisagem que floresce.

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Do domínio dos erros

Por Cacá

Quando sabemos ter cometido um erro? Não, não. Quem vive depois de Descartes sabe que não há método possível para conjurar o erro – se é que ainda é possível falar em erro. Tal como as leis naturais, cujas causas jamais serão conhecidas – alguém seria capaz de explicar o porquê da relatividade ou da turbulência na dinâmica dos fluidos? –, o erro só parece ser apreensível por meio de seus efeitos. Não que a causalidade possa ser simplesmente ignorada, mas, neste caso, talvez fosse necessário retornar a Adão, Eva e o pecado original.

“Por que sou imperfeito?”, perguntou o mortal.
“Queres a perfeição além do livre-arbítrio?”, respondeu o velho Deus transcendental, segurando sua tábua empoeirada de mandamentos. Onisciente, onipotente e onipresente: oniresponsável por todas as imperfeições terrenas e não terrenas.
“Mas de que adianta minha liberdade se já nasci condenado a pecar?”, retrucou.
“Eis a mais brilhante de minhas criações: o sentimento de culpa”.

Silêncio. Ah, mas as célebres páginas de Dostoiévski! Como respondem com maestria!

“Eu me levantarei então e Te mostrarei os bilhões de felizes que não conheceram o pecado. E nós, que nos sobrecarregamos com seus pecados, para sua felicidade, nós nos ergueremos diante de Ti, dizendo: Não Te tememos; também eu estive no deserto, vivi de gafanhotos e de raízes; também eu abençoei a liberdade com que gratificaste os homens e me preparava para figurar entre Teus eleitos, os poderosos e os fortes, ardendo por completar-lhes o número. Mas dominei-me e não quis servir uma causa insensata”.

Quantas outras causas insensatas servimos, fazendo dos efeitos um erro impassível de se relevar? Subimos um quadro de Echer, degrau a degrau, e num lance de inocência, percebemos a escadaria aplainar e nos fazer deslizar, até que novo acontecimento venha dar a segurança e a consistência de uma superfície, seja ela o Deus que se manifesta por meio de todos os seres (pecadores, imperfeitos ou vulneráveis ao erro). Estamos, pois, no deserto, vivendo de gafanhotos e raízes. Ora, rejubilem-se! Vivam com a mais sincera alegria! Sob o calor escaldante e a fome insaciada, ninguém conhece o pecado, não há senso de culpa e a sabedoria perde a dignidade, restando apenas, nas palavras sempre otimistas de Nietzsche, cogitar tolices.

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Breve ensaio sobre as mãos

Por Cacá

Vamos fazer um pacto: vocês fingem que leem, eu finjo que escrevo. Ora, vamos. Seria apenas mais um tratado de mediocridade como tantos outros que já selamos na vida. Um professor finge que ensina, um aluno finge que aprende; um profissional finge que trabalha, um patrão finge que paga; um apaixonado finge que ama, um amante finge corresponder. É bem verdade que a arte acolhe de bom grado os fingidores – Fernando Pessoa, com um tiro curto de inspiração, o mostrou com excelência. Não deixa de ser menos verdade, porém, que nem todos são artistas. Seria necessário fazer uma espécie de árvore genealógica das mãos, digamos. Imaginem toda a sequencia de utilizações: primeiro, tal qual a metáfora cinematográfica de Stanley Kubrick, um primata descobre que um osso pode funcionar como a extensão de seu braço – agenciamento mão-braço-osso. Depois, o osso vira nave espacial, nave essa construída pelas mãos de macacos supostamente mais evoluídos (nós, homo sapiens). Parando pra pensar, não estamos tão distantes assim do diagnóstico de Kubrick: assistir a um documentário sobre sondas espaciais ao som do Danúbio Azul não é de todo algo incoerente, como se a colonização do espaço já estivesse realmente em curso, convidando-nos a dançar no ritmo ternário pra lá de sugestivo da valsa.

Neste entremeio, do osso à nave, mãos humanas foram utilizadas de inúmeras formas. Pensem agora em um grande pintor empunhando seu pincel; em um grande músico manuseando seu instrumento; em uma bailarina do ventre cortando o ar; no velho pescador de Ernest Hemingway; em uma parteira da floresta, se quiserem. Quem ousaria pormenorizar a relação da espécie com sua mão e, correlatamente, com seus objetos de uso? Esse tipo de maquinação é diretamente responsável por afetar vidas para bem, para mal e para além de ambos. Digo isso porque há agenciamentos do tipo “mão-objeto de uso” que ultrapassam qualquer dimensão ética, como no caso daquele policial que apertou o gatilho contra uma criança de dez anos no Rio de Janeiro. Um crime nauseante, antiético, anti a própria potência de vida. Desnecessário dizer, antiartístico: não houve qualquer fingimento. Logo, se ainda estiverem fingindo ler este texto, não pensem que são necessariamente artistas! Nem mesmo eu, que finjo escrever, me considero como tal. Que a aversão a textos longos é um problema seriíssimo ninguém duvida, exceto aqueles que andam a confundir opiniões vazias com o mais absoluto cânone das certezas. Esses certamente passam longe dos textos e fundam seu discurso na autorreferência. Uma catástrofe interpretativa. Melhor seria, para alguns, se os textos longos pudessem ser condensados em videoclipes comerciais de trinta segundos, preferencialmente com a participação de uma mulher supragostosa ou outra coisa mais capaz de prender a atenção do que meras palavras confusas.

Não que os videoclipes sejam de todo mal. É plenamente possível fazer um bom trabalho artístico e ao mesmo tempo colocar questões importantes para o interesse público, como fizeram no vídeo recente sobre a PL da terceirização. Uma boa animação, um tema pertinente, muito embora o efeito seja tão duvidoso quanto o de um texto assustadoramente longo. Não por eles, mas pela recepção. Apesar dos argumentos matemáticos indicarem a malevolência do projeto de lei, ele continua tendo o suporte de parte da opinião pública. O mesmo para a redução da maioridade penal, para o crescente número de vítimas da polícia, para as pessoas que ainda acreditam que a Avenida Paulista consegue reunir um milhão de pessoas. A zona de tensão certamente não está na matemática, ou mais, no intelecto, pois nenhuma delas duvidaria que 1 + 1 = 2. Está, sim, no domínio da moral: moral comum e preguiçosa, que recusa se sujeitar a novos encontros, “a vida empobrecida, a vontade de fim, o grande cansaço”, como diria Nietzsche sobre Wagner (a modernidade em pessoa, a doença ela mesma).

Há situação mais moderna e padronizada que uma pessoa entregue à leitura de jornais, às palavras de ordem de um partido, aos caprichos de um punhado de poderosos, a falsos amores de toda sorte? A necessidade deste texto – quem escreve sabe do que se trata – me veio por um único motivo: utilizar as mãos para não ficar indiferente, ainda que de maneira pouco organizada, pois um estado de estupor nada mais é do que a incapacidade de diferenciar-se. Aos fingidores mais lestos que chegaram ao fim, meus fingidos agradecimentos.

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Soneto (des)necessário

Por Cacá

Poeta mais aflito,
Arranca do montante,
Coisa mais importante,
Que um verso bonito.

Um amor do passado,
Já ficando maduro,
A corroer o futuro,
Tem gosto de achado.

Escapa à idade,
Avança pelo peito,
Aumenta em saudade.

Adormece no leito,
Sacia a vontade,
Sem volta, está feito.

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